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This article was written on 21 jan 2012, and is filled under Informação.

Já fomos mais inteligentes assistindo à Luiza tomando SOPA no Big Brother do Canadá

A semana que passou foi recheada de notícias. Dos protestos contra SOPA/PIPA, dos ataques do Anonymous ao FBI e outros sites após o fechamento do Megaupload, das indignações populares contra o suposto estupro no Big Brother, do comercial ridículo de um empreendimento imobiliário às consequentes brincadeiras com a Luiza e sua condição financeira, tivemos um acontecimento atrás do outro como se o burburinho não pudesse cessar nunca. Num nível pessoal, bastava acordar, ler algumas notícias, abrir o Tweetdeck e o Facebook e a avalanche começava. Todos os dias, ficava sempre com uma interrogação em mente: quantas horas eu dormi, afinal, para ter acontecido tanta coisa? E diante de tanto falatório, não parávamos de comentar, ironizar, discordar ou concordar, expressar a opinião, enfim. Às vezes, até excessivamente, talvez.

Quer saber? Que bom.

O meme com Nascimento está rolando por aí. Se alguém souber o autor...

O inteligente jornalista Carlos Nascimento conseguiu sintetizar um pouco a coisa toda no vídeo abaixo. Indignado, Nascimento soltou em tom sarcástico na abertura da edição de 19 de janeiro do Jornal do SBT: “ou os problemas brasileiros já foram todos resolvidos ou nos tornamos perfeitos idiotas”, referindo-se ao excesso de atenção dada a dois “assuntos tão fúteis”, como avaliou: a até então desconhecida Luiza Rabelo (e sua viagem ao Canadá); e o tal estupro veiculado pelo reality show global, um absurdo per se. De fato, por que não dar atenção aos velhos problemas que nos acompanham há tempos? Corrupção? Educação degradada? Saúde pública debaixo de escombros? Violência e excesso policial (em especial contra estudantes)? Drogas? Está tudo bem resolvido?

É, sinceramente, ele sintetizou bem. Pena que parece ter sintetizado de maneira errada.

Enfraquecimento do poder midiático

A questão que cabe salientar (e que me parece a principal fonte de indignação do precioso âncora do SBT) é que a capacidade de agendamento dos veículos se encontra em queda livre. Por decorrência, os assuntos que ganham destaques nas subversivas (ou fúteis, a depender do olhar) redes sociais acabam não agradando os gabaritados jornalistas, os quais estariam sempre em busca da factualidade, imparcialidade e das notícias do interesse público. Ou seja, a decisão sobre o que será ou não pautado (e consequentemente discutido em mesas de bar e nas intelectualíssimas pausas para os cafezinhos) já não se encontra mais apenas nas mãos de uma velha guarda legitimada, autenticada e fortalecida por ela mesma. À medida que todos podemos publicar nosso próprio material, sejam vídeos, montagens, desenhos ou textos, e estejamos ou não treinados e certificados para tanto, os meios de massa já não possuem o mesmo papel cujo direito de vestir arrotavam orgulhosos.

Há apenas 2 anos, um professor nos questionava numa aula do mestrado: “me digam um caso em que os blogs pautem assuntos em algum grande veículo”. Respondi com certa audácia misturada com timidez: “isso acontece o tempo todo com blogs de tecnologia”, referindo-me à rapidez com que nerds, geeks e afins conseguem estar à frente de cadernos de informática de vários jornais. Sua resposta foi evasiva: “ah, mas é algo bem específico…”. Ué, mas não foi pedido apenas um exemplo? De qualquer forma, parece que hoje a coisa já se generalizou mais, não?

Inevitavelmente, sai daí muita coisa boba, quer nos atenhamos a blogs, quer falemos de Twitter. Filtrar o que merece destaque ou não é outro assunto bem complexo. A meu ver, o fato de Luiza ter virado assunto nacional (ao menos para algumas faixas demográficas, pelo menos) é de uma futilidade gigantesca. Mas o fenômeno não é fútil como o objeto de “discussão” – entre aspas porque, nesse caso, ele é apenas alvo de piadas, não de debates gloriosos e ações edificantes, como parece desejar uns e outros. Brincadeiras, bom humor, inutilidades em geral fazem parte de nossa vida social, e os meios de comunicação também servem para isso – não é, afinal, no SBT que são veiculados alguns programas próprios para gênios de QI elevadíssimo, como A Praça é Nossa e o Programa do Ratinho? Para alguns pensadores, a descontração e o momento improdutivo é uma liga a dar sustento a nossas relações – um atestado, digamos, de nossa incapacidade de sermos plenamente (e apenas) racionais. É sempre necessário um momento de fuga da seriedade e, logo, de riso – o qual, aliás, é uma arma e tanto. “O riso mata o temor e, sem temor, não há fé”, já se dizia em O Nome da Rosa.

A meu ver, o que ficou em evidência nessa semana conturbada é que cada vez mais as redes sociais têm fortalecido o poder de opinião e mobilização das pessoas – embora nem sempre me pareça haver muita consciência sobre essa capacidade. Absolutamente todos os assuntos que citei no início desse post tiveram alguma repercussão na Internet – o que nos mostra que a pausa para o café está deslocada, em alguma medida, para ambientes online. Mas veja que tais redes não estão desanexas ou soltas no nada – elas são a própria sociedade. Somos nós que estamos ali, seja comentando sobre o último vídeo de LOL cats, seja organizando mobilizações presenciais, seja protestando por meio de RTs contra medidas drásticas contra a pirataria. O errado nessa história é pensar que somos “menos inteligentes” só porque somos nós mesmos a decidir o que vamos falar, ler, ouvir e veicular.

One Comment

  1. [...] outra consideração bastante pertinente sobre o tema foi realizado pelo colega Paulo Sousa. Rafael Sampaio é jornalista formado pela UFJF, especialista em Comunicação e Política [...]

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